Carlos Tavares: Docas e modelos de Los Angeles e Roterdã, religiosidade exagerada e o amigo Boechat

DOCAS, NÃO

Recentemente o governo federal informou que das 154 empresas estatais, não vai privatizar apenas a Petrobras, Banco do Brasil e Caixa. Esqueceu de acrescentar as (7) Cias Docas, mais difícil (senão impossível) de privatizar que as outras três. Por seu turno o governador Dória continua insistindo em pedir a entrega da empresa federal Cia Docas do porto de Santos para o secretário de Privatizações Joaquim Mattar.

Na realidade essa indevida privatização-face às indelegáveis funções de arrecadação/controle/fiscalização- agradaria, além do Tesouro, apenas ao empresário que iria administrar o porto e ao governador. De fato, não gostariam os empresários dos terminais, usuários exportadores/importadores, e os milhões de consumidores, que, forçosamente teriam o preço dos produtos aumentados com o custo da gestão/lucro da nova administração.

EXEMPLOS

Os dois principais portos do mundo capitalista/economia de mercado, Los Angeles, nos EUA e o holandês de Roterdã, na Europa – que visitei e pesquisei – são bons exemplos da impossibilidade do setor privado administrar grandes complexos públicos. Desde sua fundação, em 1542, controlado pelo setor privado, em 1850, o negociante Phineas Banning, com as reformas realizadas passou a ser considerado o pai do porto de Los Angeles. Mas logo depois por pressão dos próprios empresários concorrentes, em 1907, passou para o controle municipal com a criação do Los Angeles Harbor Department.

Em roteiro semelhante, desde a sua fundação, em 1250, Roterdã, foi controlado pela célebre Cia das Índias Ocidentais. Mais tarde, por pressão de outras empresas, passou para o controle municipal que em 2004, criou a poderosa empresa Havenbedriff Rotterdam N.V. Os maiores portos do mundo, os chineses de Ningbo e de Xangai, são administrados por empresas mistas, incluindo estrangeiras. Atenção, governador Doria, copiar o que dá certo.

ESTADO LAICO?

Com a posse do novo governo, consolidou-se o Brasil como o país mais religioso do mundo, com cerca de 98% da população acreditando em alguma divindade. Já no discurso de posse o presidente Messias disse considerar “Deus acima de todos”. Por seu turno a ministra dos Direitos Humanos declarou que era o momento da “igreja ocupar a Nação”. Na mesma linha, na presidência do Senado/Congresso, o senador Davi agradeceu a Deus ter chegado aquelas posições. Recente artigo “Crença no Estado laico”, (no Globo) ao criticar o ministro das Relações Exteriores por referência a “providências divinas”, corretamente assinalou que trazer religião para o “centro do debate político não é saudável para o desenvolvimento do País”.

Em entrevista no mesmo jornal, o consagrado diretor-roteirista Paul Schrader ( do filme Fé Corrompida e outros ) assinalou que “ Deus tem que nos perdoar, nós o criamos para isso”. A propósito, com o crescimento dos crimes – corrupção, pedofilia, estupro e outros de até um João de Deus – praticados por padres e bispos de várias religiões talvez fosse oportuna a retirada da imagem de uma delas colocada acima dos brasões nacionais e da figura do ministro-presidente no Supremo Tribunal de Federal.

BOECHAT

Na década de 1980, quando chegou ao Globo para começar a trabalhar, o jornalista Ricardo Boechat, - falecido semana passada – me foi apresentado pelo colunista Ibrahim Sued, tornando-nos então bons amigos.

Mais tarde, na simpática dedicatória que colocou em seu esplêndido livro Copacabana Palace, deixou registrado : “Ao amigo Carlos Tavares, jornalista internacional, do irmão Boechat, Rio 99”. Grande Boechat.



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