Esperanças e contradições

O governo Temer reacendeu as esperanças nos meios empresariais, ao promover a nomeação de renomados técnicos para importantes cargos administrativos, tais como Henrique Meirelles (Ministério da Fazenda), Pedro Parente (Petrobras), Maria Silvia (BNDES), Ilan Goldfajn (Banco Central), Paulo Caffarelli (Banco do Brasil) entre outros. Por outro lado, descuidou-se na nomeação de alguns ministros que, em seguida, foram dispensados, por estarem sendo investigados pelo Ministério Público. E outros que poderão ter o mesmo destino. Uma falha elementar, indicando que o Governo está desatento ou mal assessorado na escolha de seus auxiliares.

É de se mencionar, ainda, a falta de firmeza na indicação de algumas medidas, como, por exemplo, o reajuste salarial dos servidores do Executivo, Legislativo e Judiciário, que vai elevar os gastos com a folha de pessoal em cerca de R$58 bilhões, entre 2016 e 2019. O rendimento que delimita o teto do funcionalismo passou de R$33.763 para R$39.293 (+16%). O Governo não está em condições de conceder tal regalia, pois a situação do Tesouro Nacional é insustentável: vai ter, em 2016, um excesso de gastos sobre as receitas de R$170,5 bilhões (déficit primário), aos quais vão se somar mais de 500 bilhões de juros e um acréscimo pesado que advirá da renegociação da dívida dos Estados. Em suma, é uma inexplicável contradição com a necessidade imperiosa de proceder um profundo ajuste fiscal.

Ao que se sabe, a decisão não foi compartilhada e desagradou a equipe técnica do Ministério da Fazenda. Seria o primeiro atrito Temer/Meirelles. Acresce que a medida beneficia principalmente o pessoal que “trabalha” em Brasília e, por isso, vale a pena mencionar que, segundo o IBGE, o rendimento médio dos que trabalham no Distrito Federal é 90% superior à média nacional e 40% maior dos que trabalham em São Paulo.

INFLAÇÃO

Inflação só comporta uma definição: é a alta geral de preços por um determinado lapso de tempo. Mas a inflação pode ter várias causas. As duas principais são a inflação de demanda e a inflação de oferta. A primeira resultante de um excesso de demanda pública e/ou privada, de consumo e/ou de investimentos sobre a oferta de bens e serviços; a segunda pode advir de uma frustração das safras agrícolas ou derivar de pressões internacionais, como é o caso do petróleo, por exemplo, também rotulada como inflação importada. A inflação de demanda pode, também, derivar de um aumento generalizado de salários ou de rendimentos do trabalho.

Como um caso atípico de inflação, podemos considerar a inflação inercial, tão conhecida dos brasileiros, que o economista Arthur Lewis (1963) classificava como “espiral inflacionária”. É o caso em que a alta de preços em um determinado setor contagia outros setores e gera um círculo vicioso, como por exemplo o caso em que um aumento de salários ou uma desvalorização cambial provoca um aumento de preços, que leva a um aumento de salários ou a novas desvalorizações cambiais e assim por diante.

Durante muitos anos, praticamente até a década de 1950, a inflação podia ser associada a uma expansão da quantidade da moeda em circulação. Isso não existe mais, desde que a moeda corrente (meio circulante) foi basicamente substituída pelo crédito. Atualmente, não é a quantidade de moeda, mas sim o volume de crédito que influencia vários tipos de inflação, principalmente a inflação de demanda. É aí que entra a taxa de juros.

Basicamente, a taxa de juros produz três efeitos:

1 – Eleva o custo do crédito e restringe a demanda de bens duráveis de consumo;

2 – Sobrecarrega a dívida pública e agrava a crise fiscal;

3 – Transfere renda para os portadores de títulos públicos, elevando a demanda de bens e serviços, que pressiona a alta de preços.

A taxa de juros alta só se justifica quando for necessário elevar o custo do crédito e restringir a demanda do consumo e investimentos. Na conjuntura atual, a expansão anual do crédito está situada em menos de 3,0%, muito abaixo da inflação e, pois, não tem cabimento manter alta a taxa de juros.

O controle da inflação

Controlar a inflação significa controlar as suas causas primárias. Sabidamente, para controlar uma expansão de crédito que alimenta o excesso de consumo e os investimentos, o instrumento ideal clássico é a taxa de juros. Em outros casos de inflação, déficit fiscal, salários, inflação de oferta, etc., a elevação da taxa de juros, de um modo geral, é contraindicada. Observe-se, ademais, que para controlar a expansão de crédito existem outros instrumentos e não apenas a taxa de juros.

Na atual conjuntura econômica do Brasil, com brutal déficit fiscal, recessão e desemprego, elevar ou manter alta a taxa de juros é um equívoco, como tem sido posto à evidência. Daí que atribuímos NOTA ZERO ao Banco Central, pela decisão do COPOM de 8 de junho.

ATIVIDADES ECONÔMICAS

O Congresso Nacional está paralisado face ao desconforto da Comissão de Impeachment para afastar a Presidenta Dilma e a Comissão de Ética para cassar Eduardo Cunha. Todavia, o Governo Temer conseguiu aprovar as bases do Orçamento 2016, com um déficit primário de R$ 170,5 bilhões. Agora, as prioridades estão concentradas na fixação de limites para os gastos públicos e a renegociação das dívidas dos Estados.

Apesar da advertência do governo sobre a situação das contas públicas ser pior do que se imaginava, a mudança no comando da política e da economia tem gerado expectativas mais otimistas entre os agentes econômicos, especialmente o empresariado. A melhora dos índices de confiança indica que é possível a economia ter atingido o “fundo do poço”, e os indicadores da atividade econômica reduzirem as perdas no segundo semestre do ano. Por outro lado, a reforma da Previdência Social está travada pela falta de concordância das Centrais Sindicais.

O PIB encolheu 0,3% no primeiro trimestre de 2016 em relação aos três últimos meses do ano passado, segundo o IBGE. Pela terceira vez nos últimos quatro trimestres todos os grandes setores da economia apresentaram retrações, com destaque para a indústria. A taxa de investimentos é a menor em 21 anos. Sob a ótica da demanda, as maiores quedas ocorreram na formação bruta de capital fixo e nas importações.

Com a inflação menor e a perspectiva de redução da taxa de juros, a CNC revisou de -3,9% para -3,5% a expectativa de queda do PIB em 2016. Relatório do Banco Mundial ressalta as incertezas predominantes no Brasil e estima que a economia brasileira deverá retomar o crescimento apenas em 2018. Para este ano o, BIRD projeta encolhimento de 4%.

Indústria

Após oito trimestres seguidos em retração, a indústria está no mesmo patamar de produção de sete anos atrás. Apesar do desempenho positivo da indústria total em abril relativamente a maio (+0,1%), acumulado no ano a produção física aponta redução de 10,5%.

Levantamento do IBGE indica que a indústria teve aumento da produção em abril em 5 dos 14 estados pesquisados, com São Paulo e Pernambuco (+2,6% e +10,2% respectivamente) na liderança positiva, e Amazonas e Rio Grande do Sul com as maiores taxas de redução (13,5% e 3,6% respectivamente).

A indústria do aço vê queda sistêmica. Em 2016 o Instituto Aço Brasil, entidade que reúne as siderúrgicas, estima recuo de 6,8% na produção. Segundo o setor, as siderúrgicas no Brasil estão operando com 60% da capacidade instalada.

Sem perspectivas de recuperação da atividade econômica interna, o cenário é agravado pela desaceleração do consumo de minério de ferro na China, que também crescerá menos e enfrente mudanças estruturais. Nesse sentido, os investimentos da indústria de transformação em máquinas, equipamentos e instalações deverá sofrer recuo de 50,5% em relação a 2015, de acordo com a FIESP.

Comércio

As vendas do comércio varejista aumentaram 0,5% em abril em relação a março no conceito restrito, e caíram 1,4% quando considerados os setores automotivo e de matérias de construção. Os números foram divulgados hoje pelo IBGE. Acumulado no ano, o volume de vendas dos dez segmentos do varejo apurados na PMC é 9,3% menor do que no mesmo período do ano passado.

O destaque foi o crescimento marginal de 1% das vendas do segmento de hiper e supermercados, o qual vinha acumulando perdas significativas. De acordo com a ABRAS, os resultados do segmento acumulados no trimestre indicam que os supermercados apuraram leve alta de 0,24% nas vendas reais.

No varejo ampliado, acirraram-se as reduções do volume de vendas de veículos (-6,6%), e materiais de construção (-4,0%).

As perdas acumuladas e generalizadas em praticamente todos os segmentos do varejo refletem a confiança dos consumidores em nível historicamente baixo. Em maio, a CNC apurou queda de 4,6% na intenção de consumo das famílias.

Com base no estudo da CNC sobre o fechamento líquido de 96 mil lojas em 2015, a Fecomercio São Paulo estima que o número de estabelecimentos do varejo em 2016 deverá retomar o nível de 2008, com cerca de 1,4 milhões de empresas (antes 1,6 milhões em 2014).

Agricultura

A escassez de chuvas que atinge o cerrado brasileiro deve reduzir a safra brasileira de grãos em 6,5% este ano para 195,9 milhões de toneladas.

As exportações brasileiras de soja em grãos permaneceram aquecidas em maio passado. No acumulado de 2016, os embarques de milho somam 7,5 milhões de toneladas e de soja, 32,3 milhões de toneladas, avanço de 139% e 27,2%, na comparação com o mesmo período de 2015, respectivamente.

As cotações das seis principais commodities agrícolas exportadas pelo Brasil encerraram maio em patamares mais elevados que em abril, nas Bolsas de Chicago e NY. Trigo e Cacau fecharam em queda.

Mercado de Trabalho

O contingente de desempregados no país aumentou 42,1% de fevereiro a abril, e o desemprego chegou a 11,3% em abril, o pior da série histórica iniciada em 2012. No mesmo período do ano passado, a taxa de desocupação estava em 8%. O rendimento médio real dos trabalhadores brasileiros caiu 3,3% frente ao trimestre de fevereiro, março e abril do ano passado.

Levantamento feito pelo IPEA mostra que os jovens entre 14 e 24 anos são os mais afetados pelo desemprego. No 4º trimestre de 2015 a taxa era de 15,25% e passou para 26,36% no 1º trimestre deste ano.

O saldo de empregos na construção pesada caiu 5,3% em 12 meses em São Paulo e atinge seu pior resultado desde o início de 2012. O motivo principal é a falta de novas licitações realizadas pelo Estado e diminuições sofridas nas obras em andamento.

O Ministério do Trabalho mudou as regras para analisar pedidos de seguro desemprego, com o objetivo de acelerar o prazo de resposta para a concessão de benefícios.

Em meio à crise, comerciários do Rio de Janeiro querem 15% de aumento para os salários e elevação do piso da categoria. Além disso, reivindicam o fim do banco de horas e da fixação do valor do auxílio-alimentação em R$ 25.

Inflação

A inflação medida pelo IPCA subiu 0,78% em maio e acumula 9,32% em 12 meses. Os preços administrados voltaram a pressionar, mas apesar do aumento mensal, analistas acreditam que a inflação deverá perder o fôlego ao longo do ano.

Esse resultado mostra o tamanho da tarefa do novo presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, que já alertou que a condução da política monetária se dará para atingir o centro da meta de inflação (4,5%).

O COPOM manteve a taxa de juros SELIC em 14,25% a.a. em sua última reunião, no dia 09 de junho.

A pressão dos itens agrícolas no atacado impactou no aumento de 0,82% do IGP-M em maio, surpreendendo o mercado. No entanto, a escalada de preços dos alimentos no mercado externo deve ser temporária, segundo analistas.

Setor Público

O Governo federal registrou em abril superávit primário (economia para pagamento dos juros da dívida pública) de R$ 9,7 bilhões. O saldo positivo não foi, todavia, suficiente para reverter o resultado negativo do primeiro quadrimestre: de janeiro a abril os gastos federais superaram a arrecadação em R$ 8,5 bilhões.

A Secretária de Fazenda do Espírito Santo, Ana Paula Vescovi assumiu a presidência do Tesouro Nacional, a primeira mulher a assumir o comando do órgão.

A equipe econômica está disposta a conceder uma moratória de seis meses aos Estados. A ideia é alterar o projeto que foi encaminhado pelo ex-ministro Nelson Barbosa ao Congresso, que previa alongamento das dívidas dos Estados com a União por um prazo de 20 anos.

O projeto orçamentário que o governo enviará em alguns dias ao Congresso deve considerar punição legal ao ente público que estourar o teto do gasto estabelecido (o ideal: meta de inflação corrige o limite para o gasto público). Estima-se que esse teto reduzirá os gastos em 4,1% do PIB até 2025.

O Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão anunciou o corte de 4.307 cargos e funções comissionadas e 923 funções gratificadas. A medida vai gerar economia de R$ 230 milhões por ano, de acordo com o Ministro Dyogo Oliveira.

Subiu o déficit da Previdência Social em abril. As contribuições previdências caíram 5,1% em termos reais nos quatro primeiros meses do ano, em razão do desemprego entre trabalhadores com carteira assinada.

Setor Externo

A balança comercial brasileira foi um dos poucos pontos positivos nos dados do PIB. De janeiro a março as exportações brasileiras cresceram 6,5% e as importações caíram 5,6%.

O acumulado de exportações apresentou crescimento de 31,4% entre abril e maio desse ano. Apesar de ter favorecido o saldo da balança comercial em 2016, o resultado é o pior desde 2012 para o mês de maio.

Ademais, a queda de 20,5% na importação mensal, em comparação a maio de 2015 proporcionou superávit comercial recorde de US$ 6,4 bilhões para o mês.

Aproveitando a melhora da avaliação sobre o risco Brasil após a troca de governo, empresas brasileiras, como: Petrobras, Marfrig, Vale, etc. captaram US$ 9,6 bi no exterior e usarão os recursos para refinanciar suas dívidas.

No cenário internacional estima-se que o comércio global tenha o pior ano desde a crise de 2008, em virtude, principalmente, da fraca demanda dos mercados emergentes. Para 2017, a expectativa é de crescimento de 3,25% no comércio mundial.

A taxa de desemprego nos EUA apresentou redução de 5% para 4,7% em maio - menor taxa desde 2007. Apesar da queda do desemprego, no mês, foram criadas relativamente poucas vagas, 38 mil – menor número desde 2010.

A economia dos países da zona do euro cresceu 0,6% no primeiro trimestre de 2016. A taxa é a mais alta em 12 meses.



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