Para afastar imagem negativa da Lava-jato, Petrobras aumenta rigor em teste de integridade

Denúncias na mídia, citações em processos de auditoria, sanções disciplinares, pendências tributárias. Até mesmo contribuições dadas a campanhas políticas incompatíveis com a renda da pessoa podem ser alvo da varredura feita na vida de quem se candidata a um cargo de gerência na Petrobras.

Todas essas medidas fazem parte do teste de integridade que já foi aplicado a quase quatro mil funcionários da estatal. Apesar de fazer parte do pacote de novas práticas que teriam sido adotadas na empresa após a Lava-jato, a aplicação desse teste já vendo sendo feita desde o fim de 2015.

O aumento no rigor já causa efeitos, como conta o diretor de Governança, Risco e Conformidade da Petrobras, João Elek. Ele explica que a porcentagem daqueles que caíram na "malha fina" e foram vetados não chega a 1%. Mas, por trás do número, ele acredita haver um fator pedagógico:

"Eu acho que esse efeito é muito positivo. É claro que aquele que está querendo fazer uma coisa errada e vê alguém em seu caminho, reage de maneira negativa. Mas, de uma maneira geral, as pessoas aceitam porque o público interno da Petrobras tem um nível sócio-cultural e de valores muito bom. É uma pena que tão poucos tenham causado uma mágoa tão grande na reputaçao da empresa".

O teste é aplicado tanto a quem já é colaborador da empresa quanto para quem entra por indicação de fora. Mesmo sendo dedicado a cargos de gerência, pessoas que vão para áreas tidas como sensíveis, como a de compras, por exemplo, também são obrigadas a passar pela avaliação.

Gestor que troca de equipe também tem que fazer o teste de novo. Nesse caso, a intenção é evitar cenários de conflito de interesses. João Elek destaca que apesar de não poder impedir indicações indesejáveis, consegue, através do teste, causar saias justas a quem insistir num nome não qualificado.

"Eu não posso por lei proibir um acionista de indicar seu representante. Mas a lei me permite através de um comitê de elegibilidade avaliar o candidato e encaminhar para o acionista uma recomendação ou não. Então, digamos que o acionista insista. Ele passa pelo constrangimento de insistir num nome que foi rejeitado por um comitê criado para avaliar a elegibilidade", explica Elek.

Indicado pelo acionista majoritário, a União, o atual presidente da empresa, Pedro Parente, foi um dos gestores que passou pelo teste. No caso do executivo, o aval foi positivo.

Além dos testes de integridade aplicados aos funcionários, os fornecedores da empresa também estão se adequando a esse novo momento. Mais de 15 mil prestadoras de serviço também foram submetidas a parâmetros semelhantes. A criação de comitês para tomada de decisões colegiadas foi outra medida adotada pela estatal.

A presidente do Instituto Compliance Brasil, Sylvia Urquiza, destaca que todas as mudanças foram bem-vindas, mas pondera que pelo seu porte, a Petrobras já devia ter implantado um forte setor de compliance muito antes dos escândalos:

"O que a gente vê na prática é que as empresas só se movem para estabelecer um programa de compliance que seja eficaz após elas terem algum problema ou após alguma concorrente ter algum tipo de problema com as autoridades".

Hoje, a Petrobras é alvo de processos de investidores estrangeiros que se dizem lesados pelas práticas de corrupção adotadas pela empresa no passado.



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