Crise argentina não deve causar estragos no Brasil

A equipe econômica do governo Michel Temer vem monitorando de perto a deterioração das condições econômicas na Argentina, mas avalia que não há risco de contágio para o Brasil. O país vizinho enfrenta a desvalorização do peso diante do dólar e três altas da taxa de juros seguidas, na primeira crise em dois anos de governo do presidente Mauricio Macri. No lado brasileiro, o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Fabio Kanczuk, argumenta que a situação das contas externas, da política fiscal e da inflação é melhor que no vizinho, e que investidores reconhecem as diferenças. Além disso, o governo diz que a economia doméstica é pouco dependente da Argentina.

"A impressão que temos é de que não haverá contaminação", disse o secretário. "O mercado percebe que as coisas estão diferentes, tanto que Brasil, México, Chile e Colômbia estão ilesos."
O principal argumento é que os fundamentos econômicos são bem diferentes dos dois lados da fronteira. Enquanto a Argentina tem déficit externo próximo de 5% do Produto Interno Bruto (PIB), o saldo negativo no Brasil não chega a 1%. Na inflação, argentinos esperam mais de 20% neste ano, enquanto brasileiros devem ter alta inferior a 4%.

Nas contas públicas, apesar de o Brasil ter desistido temporariamente da reforma da Previdência, o que mostra que a situação não está resolvida, Kanczuk defende que o quadro é diferente aqui por causa do teto de gastos. "Essa é uma garantia muito forte de que a situação vai andar na direção correta."

O tom tranquilizador também leva em conta a estimativa da Secretaria de Política Econômica de que é pequeno o impacto de eventual recessão no vizinho. Cálculo da equipe econômica indica que um tombo de 10% do PIB argentino resultaria em retração de 0,05% da economia brasileira.
"A conclusão é que não afeta. O impacto é muito pequeno", argumenta. A recessão passou a ser uma hipótese levantada pelos economistas após nova alta do juro levar a taxa para 40% ao ano. "O Brasil afeta muito a Argentina, mas eles não nos afetam tanto, porque nossa economia é muito fechada", resume o secretário.

O novo pacote de medidas anunciado na sexta-feira, em Buenos Aires, foi elogiado por Kanczuk. "A direção que tomaram é perfeita", disse, ao comentar o novo aumento do juro, a adoção de restrições para bancos comprarem dólares e uma meta mais rígida para o déficit público, que caiu de 3,2% do PIB para 2,7%. Antes desse recente aumento da desconfiança dos investidores, o governo de Macri já havia tomado medidas com teor semelhante, mas com expectativa de resultados mais graduais.

Na sexta-feira, o banco central argentino anunciou a terceira alta de juros em uma semana para conter a forte desvalorização do peso argentino em relação ao dólar e a inflação, que continua acima da meta estabelecida pelo governo para 2018, de 15% - está ao redor dos 20%. A taxa de juros, que tinha sido elevada na quinta-feira para 33,25%, subiu para 40%, a maior do mundo. No ano, o peso argentino é a moeda que mais se desvaloriza ante o dólar, considerando uma cesta de 31 principais divisas do mundo. A queda é de 15,2%.

Exportação de produtos manufaturados brasileiros pode ser afetada, alerta a AEB

A turbulência argentina pode reduzir as exportações de manufaturados, especialmente de carros, do Brasil para o país vizinho. A Argentina é o principal comprador de manufaturados brasileiros e o terceiro maior parceiro comercial do Brasil em exportações, atrás só da China e dos EUA. No primeiro quadrimestre, o Brasil exportou US$ 6,060 bilhões, dos quais US$ 1,868 bilhão, ou 31%, foram carros.

"Certamente a crise vai ter impacto nas exportações brasileiras, porque a desvalorização do peso argentino deve aumentar o custo das importações", afirma o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto Castro.

O economista Fabio Silveira, sócio da MacroSector, concorda. Para ele o contágio da crise argentina deve se dar via balança comercial. "O efeito da crise no Brasil é o enfraquecimento da recuperação já moderada da indústria brasileira." Mas ambos dizem que é cedo para calcular o estrago.

Além da desvalorização do peso, a alta dos juros na Argentina, que subiram para 40% ao ano, deve reduzir o crescimento do país, afetado pela quebra da safra de soja. Com 12 milhões de toneladas a menos de soja, ou US$ 5 bilhões, Castro diz que o crescimento do PIB foi cortado em meio ponto percentual.

A quebra da safra beneficia a rentabilidade do produtor brasileiro, que consegue um preço maior pela soja. Mas, como a produção nacional deste ano está dada, o Brasil não deve ter grandes avanços nas exportações da commodity que compensem as perdas nas vendas externas de manufaturados, diz Castro.

Dos US$ 2,068 bilhões de carros exportados pelo Brasil até abril, 90% foram para Argentina. Por enquanto, a indústria brasileira está cautelosa. Roberto Cortes, presidente da MAN, que produz caminhão e ônibus, diz que, se a crise persistir, certamente haverá redução nas vendas para a Argentina, que hoje fica com 35% das exportações da empresa. Mas ele acha que a crise é momentânea. "Por isso não vamos alterar, por enquanto, os planos de produção voltada ao país."



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