Guerra comercial entre Estados Unidos e China pode afetar balança comercial brasileira

A guerra comercial entre China e Estados Unidos gerou um cenário de total imprevisibilidade e insegurança, na avaliação de integrantes da área econômica do governo. Essas fontes afirmaram que ainda é cedo para fazer ou reavaliar projeções, como a estimativa de superávit para este ano, entre US$ 50 bilhões e US$ 60 bilhões. Porém, admitem que, na hipótese de redução do comércio mundial, o Brasil também será afetado negativamente pelo desaquecimento das exportações e das importações, o que resultaria em um saldo positivo menor.

Até 20 dias atrás, antes do acirramento da disputa entre as duas maiores potências econômicas do planeta, a Organização Mundial do Comércio (OMC) projetava um crescimento de 4,4% do comércio mundial. Com os anúncios das sobretaxas americanas e chinesas, o próprio organismo já admite que as estimativas poderão ser revistas.

— Por enquanto, não temos nada de concreto que nos leve a reavaliar as estimativas. O que existem, na prática, são anúncios. Mas admitimos que tanto o comércio internacional, como a economia mundial, poderão crescer menos por causa disso. Os agentes econômicos operam com base em incertezas — disse uma fonte.

O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, admite que poderá rever para baixo sua projeção de superávit comercial, atualmente em US$ 55 bilhões. Porém, ele destacou que, se a economia brasileira não reagir, a consequência será a queda das importações, o que ajudaria na manutenção do saldo positivo projetado.

— Se o país importar menos e o comércio mundial diminuir, o superávit cai. Não há como fazer previsões neste momento. Não sabemos o que pode acontecer — disse Castro.

Os EUA anunciaram aumentos de tarifas que correspondem a US$ 50 bilhões, dos quais US$ 34 bilhões começam a valer no dia 6 de julho. A China anunciou os mesmos valores, também para vigorarem no dia 6. Só esse movimento já é fator de instabilidade no mercado mundial.

Principal exportador de soja para a China, o Brasil poderá se beneficiar, em um primeiro momento, com o aumento do preço da commoditiy, afirmam os técnicos. Isso porque não há como suprir a oferta americana para o mercado chinês. No ano passado, as exportações brasileiras do produto somaram US$ 20 bilhões, enquanto as vendas dos Estados Unidos ficaram em US$ 14 bilhões.

— A soja americana não está proibida de entrar na China. O exportador dos EUA pode decidir vender o produto, mesmo com a sobretaxa, o que ajudaria a aumentar o preço da soja. O consumidor chinês vai pagar mais caro — acrescentou essa fonte.

Também é esperado aumento no preço do petróleo, mas há dúvidas em relação às carnes em geral. Os EUA não são grandes fornecedores para a China desses produtos, embora sejam concorrentes do Brasil. A lista de retaliações, que abrange 545 produtos, ainda está sendo analisada pelo governo brasileiro.

Ainda no caso da soja, o setor privado ainda não sentiu o impacto da disputa entre americanos e chineses, segundo o diretor-geral da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), Sérgio Mendes. Ele acredita que os efeitos só serão percebidos com mais clareza a partir do ano que vem, uma vez que grande parte da produção de soja está contratada. A preocupação maior, afirmou, continua sendo o tabelamento dos preços mínimos para o frete rodoviário.

— Estamos preocupados é com o tabelamento, até mesmo para negociarmos contratos futuros. Com o advento da tabela está tudo parado e não temos como negociar nada — afirmou Mendes.



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