China: maior parceiro comercial do Brasil é desafio para Bolsonaro

Além da questão com os árabes que vai visitar, existe uma preocupação sobre como o presidente Jair Bolsonaro, que tem em Donald Trump um aliado, lidará com as tensões comerciais entre Estados Unidos e China durante sua viagem de 12 dias ao Oriente. “O mundo não está vivendo um daqueles remansos, com tensões delicadas nos países que serão visitados pelo presidente. É uma viagem de alcance grande e difícil, porque tem múltiplos destinos e interlocutores diferenciados”, avalia o diplomata Marcos Azambuja, conselheiro emérito do Centro Brasileiro de Relações Exteriores (Cebri) e ex-embaixador do Brasil na França e na Argentina.

Por ser uma viagem longa e bastante delicada, é importante que o presidente evite novas polêmicas, como pede a boa diplomacia, ao longo dos cerca de 18 mil quilômetros entre Brasília e Tóquio, aconselham os analistas. “O governo ainda não encontrou uma linguagem ou discurso que fosse pela inclusão e pela harmonização para atrair os objetivos de investimento”, completa Azambuja.

Os compromissos de Bolsonaro durante a viagem vão desde cerimônias políticas, como a entronização do novo imperador japonês Naruhito, a encontros bilaterais com o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, com o presidente chinês, Xi Jinping, e com príncipes e xeques dos demais países árabes do roteiro. A agenda está cheia, prevendo também eventos empresariais e mesas-redondas na China, nos Emirados Árabes, no Catar e na Arábia Saudita. A ideia é apresentar o “novo Brasil de reformas”, capaz de consolidar e estabelecer novas relações comerciais.

A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) organizou a missão empresarial nesses quatro países. Até sexta-feira, estavam inscritos 200 participantes de 120 empresas de diversos setores, como alimentos e bebidas, defesa, biotecnologia, calçados e couro, energia, engenharia, máquinas, papel e celulose e produtos químicos. “Buscamos aproveitar a oportunidade gerada pela agenda presidencial para promover novos negócios e atrair investimentos diretos para o Brasil”, aposta o presidente da Apex-Brasil, Sergio Segovia.

Entre os integrantes das missões estão os presidentes da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, e do Sistema Firjan, Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, que participam separadamente de encontros com Bolsonaro em Pequim e em Abu Dhabi, respectivamente. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), que costumava coordenar esse tipo de evento em governos anteriores, não tem representantes na viagem.

No Itamaraty, quando se pergunta sobre os objetivos da viagem, a resposta é o título de um artigo do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que está em destaque na página da pasta: “O Brasil está aberto para negócios”, onde ele destaca que a carteira de 117 projetos em andamento do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), gestado durante o governo Michel Temer, que podem atrair R$ 1,3 trilhão em investimentos. Os analistas alertam, no entanto, que os estrangeiros só virão quando houver menos turbulência interna e regras mais claras.

COMMODITIES

Os países do roteiro da viagem de Bolsonaro são importantes destinos de commodities e de carnes brasileiras. Juntos, respondem por quase 32% das exportações brasileiras, sendo a China o principal destino. Um dos focos principais do governo com essa viagem é justamente a Ásia. Destino de 40,5% das exportações nacionais entre janeiro e setembro deste ano, o continente surge como um importante mercado para o país viabilizar a assinatura de acordos internacionais, segundo a diplomacia do governo. Em 2019, os asiáticos importaram US$ 67,8 bilhões do Brasil até setembro. China e Japão, países onde Bolsonaro participará da maior quantidade de eventos, representam 73,5% das transações.

O secretário de Negociações Bilaterais na Ásia, Pacífico e Rússia do Ministério das Relações Exteriores, embaixador Reinaldo José de Almeida Salgado, na China, explica que a estratégia será otimizar setores prioritários ao Executivo. “São três áreas principais: exportações de produtos nacionais, atração de investimentos, entre elas mostrar o trabalho no Brasil nas PPPs (Parcerias Público-Privadas) e na parte empresarial, e também melhorar o aproveitamento da ciência, tecnologia e informação”, garante.

A China é o maior parceiro comercial do Brasil. Responde por 27,6% das exportações brasileiras, com destaque para soja, minério de ferro e petróleo. O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, lembra que 96% dos produtos embarcados são commodities e o país tem dificuldade para conseguir exportar manufaturados para lá. “O Brasil não consegue vender produtos de maior valor agregado para os chineses, porque não é competitivo devido aos custos logísticos e tributários, que encarecem 30% as vendas para o exterior. Por isso vamos continuar vendendo apenas para a América do Sul, que é mais próxima. A China é um grande importador global, mas não temos competência para vender para esse mercado”, lamenta.

Em relação às nações árabes, que costumam comprar bastante carne, milho e soja do Brasil, Castro vê algum potencial de crescimento. “O comércio com esses países têm perspectivas para crescer, mas trata-se de campos minados. O governo não pode emitir opiniões durante a viagem”, alerta Castro.

Como o país tem boas relações diplomáticas com o Japão, o objetivo é expandir a sintonia para que as partes entrem em consenso quanto a uma proposta de livre-comércio, que torne as relações bilaterais mais dinâmicas, de acordo com Salgado. “A expectativa é mostrar um país aberto e atrativo para investimentos. O governo brasileiro tem feito esforço de pensar em um lançamento de um diálogo mais estruturado de livre-comércio. Se a gente não correr atrás, tende a declinar (essa relação)”, avalia.



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