Especialistas debatem problemas, desafios e expectativas para o comércio exterior brasileiro em 2020

O ano de 2019 não foi um ano fácil para o país. O Brasil vem enfrentando uma série de dificuldades na área econômica, o que contribuiu para derrubar os índices nacionais. Os desafios que devem ser enfrentados para o próximo ano seguem um caminho tortuoso até a chegada de novas oportunidades. No último dia 12 de dezembro, a M2Trade, que atua na área de comércio exterior, promoveu um evento no Salão Mauá do edifício RB1, Centro do Rio, com diversos nomes do setor para debater as expectativas para 2020.

O diretor presidente da Max Linker Consultoria de Comércio Exterior e Logística, conselheiro e ex vice presidente executivo da AEB, Carlos Eduardo Portella; o economista do IBMEC, conselheiro da AEB, diretor da SNA, Márcio Sette Fortes; o especialista em Comércio Exterior, professor do Curso de Gestão Internacional da PUC-RJ, e trader internacional especialista em alimentos, Fabrício Silva; a fundadora do Mulheres no Comex, e da Labcomex e consultora de PMEs, Monnike Garcia; e a diretora presidente do Sindicato dos Despachantes Aduaneiros do Estado do Rio (SINDAERJ), Célia Regina Gomes; foram os palestrantes convidados pela CEO da M2Trade, Michelle Fernandes, para partilharem um pouco de suas experiências e expectativas com os convidados.

“Onde nós queremos chegar?”, esse foi o questionamento que fez Márcio Sette Fortes iniciar o debate. A resposta não era difícil: “onde nós já estivemos”. Segundo o economista, a participação do Brasil nas exportações mundiais caiu de 3% para 1,2% ao longo dos anos. Uma lamentável linha decrescente para o setor que agora corre atrás do passado. Para o especialista, a indústria nacional foi perdendo espaço para o produto importado, que chega, por vezes, no Brasil, por um preço menor do que o que é produzido internamente.

“Temos que exportar cada vez mais para compensar o valor que foi caindo ao longo do tempo. Mas existe hoje uma mudança importante: o novo patamar do dólar veio para ficar”, acrescentou Fortes.

O economista afirma que o câmbio não é fator de competitividade, diferentemente de como alguns profissionais do setor atuam. E que a competitividade em si vem decaindo não só pelos fatores que já existiam, como também por conta de pequenos detalhes a exemplo do novo imposto em contas de luz, que vai pesar na conta do empresário industrial.

A tendência, para Fortes, entretanto, é ter um quadro mais positivo nos próximos anos. “2019 foi um ano de reversão, agora precisamos correr atrás do que regredimos”, finalizou.

Os números da participação do país no comércio exterior não são nada agradáveis. Monnike Garcia trouxe um levantamento atualizado da Doing Business sobre a colocação do Brasil no ranking mundial: o país está em 124º de 190 economias ao redor do mundo e 108º no comércio internacional com 49 horas para exportar, comparado aos países da OCDE que exportam em uma média de 12.7 horas.

Os desafios das exportações, segundo dados da FGV de 2018, se intensificam com alguns entraves principais, como as elevadas tarifas cobradas por portos e aeroportos (51,8%), a dificuldade de oferecer preços competitivos (43,4%), e elevadas tarifas cobradas por outros órgãos anuentes (41,9%).

“A carga tributária, a burocracia, os custos logísticos, celeridade e descentralização do processo fazem com que as oportunidades sejam ainda mais distantes. Algumas melhorias, por outro lado, podem ajudar o processo, como o acordo mercosul/união europeia, a implantação do portal único, a diversificação da pauta exportadora e os serviços”, ressaltou Garcia.

Carlos Portella fez coro à especialista, destacando a importância da diversificação da pauta exportadora e a necessidade de agregar valor ao produto. Segundo ele, uma saca de café sai do Brasil (que é um dos maiores produtores e exportadores mundiais de grão cru) a 100 dólares, e chega em um restaurante na França a 15 mil euros. São muitas perdas de receita cambial, internas, entre outras burocracias.

“O Brasil agora está exportando para países produtores que são nossos concorrentes. E que por consequência estão agregando valor com o nosso produto, que é aquilo que a gente mais quer”, disse Portella.

Os desafios, entretanto, não param por aí. Para o especialista, o momento para exportação não está fácil também pela imagem externa ruim que o país vem cultivando. “O consumidor lá fora diz que o Brasil está acabando com a Amazônia, e não compra o nosso produto. Você se fosse comprador, investiria no nosso país?”, indagou.

Mas a noite não foi só de dados negativos. A sindicalista Célia Regina Gomes subiu ao palco para noticiar que a Receita Federal anunciou, nesta quinta, dia 12, a volta do Despachante Aduaneiro para o Programa da Organização dos Estados Americanos (OEA). Ela espera, agora, que a legislação seja cumprida.

“O despachante não vai acabar, mas ele precisa mudar. O portal único vem para facilitar a vida de todos, mas até para preencher esse campo você precisa de conhecimento. O despachante precisa ser capacitado para isso. Vai diminuir o número de despachantes que atuam externamente, como era no passado. Hoje, ele trabalha mais internamente e existe uma grande chance dele ter que ser autônomo”, concluiu Gomes, que lembrou que o Portal Único só deve entrar em vigor em 2021, devido a falta de verba da Receita Federal.

Por fim, o professor Fabrício Silva trouxe novidades para o setor alimentício no Rio de Janeiro, que é um cartão de visita no exterior. No estado, o setor alimentício compete mais entre as micro (1682) e pequenas (250) fábricas, do que as grandes (5). Segundo dados da Firjan trazidos por Silva, os principais entraves ao longo dos anos se resumem em “burocracia alfandegária ou aduaneira no aeroporto, porto”, de 33,8% em 2013”; 53,4% em 2015; 46,2% em 2017; e “burocracia tributária” de 46,7% em 2019.

“Oitenta por cento das empresas importadoras identificaram dificuldades em importar este ano. E apenas 14% não identificaram. Comprar deveria ser mais fácil do que vender, mas tudo vai depender se você tem dinheiro pra isso. Hoje, o principal entrave (60%) para a importação são os custos tributários”, destacou.

A expectativa para 2020, por outro lado, ainda pode ser positiva. Segundo o professor, é preciso que haja um aumento nas exportações de produtos de valor agregado (principalmente alimento/bebida); maior conhecimento do exportador/importador no processo operacional; rodada de negócios gratuitas para empresas com perfil de exportação/importação e mais encontros como esse que ocorreu na cidade do Rio de Janeiro falando sobre Comércio Exterior.



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