Otimismo com Mercosul é retomado com mudanças em gestão de países

As recentes mudanças nos governos de Brasil e Argentina, que agora têm presidentes considerados mais liberais, devem fomentar o avanço econômico do Mercosul, afirmaram especialistas.

"Entendo que esse é o momento certo para o bloco avançar, com lideranças novas e alinhadas", disse Alberto Alzueta, presidente da Câmara de Comércio Argentino Brasileira, ao abrir o evento "Mercosul: o que fazer?", realizado ontem pela entidade de promoção comercial.

Já o ex-embaixador brasileiro Regis Arslanian afirmou que os chefes de estado dos dois países, Mauricio Macri e Michel Temer, devem levar o grupo regional a uma agenda "mais produtiva".

"Os dois governos têm consciência plena da importância do Mercosul. Antes faltava diálogo e vontade política, mas agora vejo perspectivas melhores", diz.

O entrevistado ainda defendeu que as disparidades ideológicas dentro do bloco não devem impedir o avanço comercial. "O Brasil e a Argentina são a espinha dorsal do Mercosul e podem contornar essa situação", entende.

Especialista em relações internacionais, Felix Peña também demonstrou otimismo com os novos presidentes. Ele disse que os sul-americanos têm "perspectivas espetaculares", especialmente nos setores de agropecuária e energias alternativas.

Concorrência chinesa

No sentido contrário, representantes de entidades de classe demonstraram preocupação quanto ao futuro do bloco econômico.

"Hoje, os empresários do setor têm pouca confiança e muita insegurança com o Mercosul", afirmou Renato Smirne Jardim, superintendente de políticas industriais e econômicas da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).

Ele pediu uma "reformulação completa" do grupo regional, com a criação de regras "mais claras", de prazos para a tomada de decisão pelos signatários e de mais mecanismos de financiamento.

Segundo Smirne, as exportações de produtos têxteis para a Argentina recuaram nos últimos dez anos. Assim, a China, que ampliou suas negociações com o país, virou o principal parceiro argentino no setor.

Mesmo com o recuo, os embarques para o vizinho sul-americano representam 23% das vendas brasileiras de têxteis para o exterior, completou o especialista.

E o setor têxtil não foi o único afetado pela concorrência chinesa. O avanço dos asiáticos também foi citado por Alida Bellandi, vice-presidente do conselho consultivo da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).

Além do aumento das negociações entre chineses e argentinos, ela afirmou que máquinas do país asiático são "maquiadas" e vendidas dentro do bloco, o que iria contra as regras do Mercosul.

"Temos problemas com barreiras não tarifárias, como a questão das patentes: é necessário uma fiscalização expressiva para impedir que equipamentos de outros países aproveitem as vantagens do bloco", apontou.

Alida ainda criticou o "caráter político" do Mercosul. Nos últimos anos, disse ela, o bloco perdeu o "caráter pragmático", mais comercial, e passou a ter maior preocupação com questões geopolíticas.

Assessor de Comércio Exterior da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Mario Roberto Branco seguiu a mesma linha. Para ele, a relação comercial entre Brasil e Argentina foi "muito politizada" na última década, prejudicando as trocas de mercadorias entre ambos.

Problemas na Venezuela

A crise venezuelana também é motivo de apreensão no bloco sul-americano. "Eles [Venezuela] têm problemas graves com abastecimento e uma forte degradação econômica, o que causa preocupação para os outros membros", afirmou Mario Mugnaini, ex-secretário executivo no Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC).

Sobre a diferença ideológica entre os signatários, ele disse que a distância entre os países está crescendo. "Vai chegar um momento em que a disparidade vai ser muito grande para continuar conversando", indicou o especialista.

Já Arslanian avaliou o prazo dado pelo bloco aos venezuelanos, que têm até o dia 1º de dezembro para realizar adequações legislativas .

"Se eles não aceitarem e não se conformarem à legislação do Mercosul, terão que ser afastados, como aconteceu com o Paraguai há alguns anos", afirmou.

Mugnaini ainda falou sobre a polêmica envolvendo a presidência do bloco. Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai se opuseram a posse da Venezuela, que deveria liderar o grupo durante o segundo semestre.

"É melhor não ampliar a discussão e deixar passar os seis meses que antecedem a próxima troca. Depois, a Argentina vai assumir o posto e os trabalhos voltarão ao normal", diz.



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