Brasil e Irã realizam Comissão Econômica e Comercial para reforçar parceria e ampliar comércio

A assinatura de pelo menos quatro documentos, entre eles um Acordo-Quadro sobre Promoção do Comércio e Investimentos, deverá figurar entre os principais resultados da Reunião da Comissão Econômica e Comercial Brasil-Irã, a ser realizada em Brasília nesta quinta-feira (17) e sexta-feira (18).

A Delegação iraniana será chefiada pelo ministro da Economia e Finanças, Ali Taiebnia, que virá ao Brasil acompanhado por funcionários governamentais e um grupo de dez empresários das áreas de petróleo, gás e do sistema bancário, entre outros. Do lado brasileiro, estarão presentes os ministros José Serra (Relações Exteriores) e Marcos Pereira (Indústria, Comércio Exterior e Serviços), representantes dos dois ministérios e empresários.

Em paralelo à Comissão Econômica e Comercial Brasil-Irã, serão realizadas reuniões das cinco subcomissões existentes entre os dois países nas áreas da Agricultura, Comércio e Indústria, Assuntos Financeiros, Energia, Petróleo e Gás e Ciência e Tecnologia. Mesmo sem ter uma subcomissão específica, o setor do Turismo é outra área em que os dois países têm grande interesse em estreitar a cooperação.

Segundo o ministro Rodrigo de Azeredo Santos (Diretor do Departamento de Promoção Comercial e Investimentos do Itamaraty e que em breve assumirá a chefia da Embaixada brasileira em Teerã), “para o governo iraniano, parceria é a palavra chave no momento atual das relações entre os dois países e o interesse em intensificar os vínculos com o Brasil deverá ser um dos pontos a serem destacados pela delegação iraniana na reunião”.

De acordo com o diplomata, “é evidente que aos iranianos interessa aumentar o fluxo comercial com o Brasil, mas eles não querem se limitar a ampliar as trocas comerciais. Buscam algo além e defendem uma parceria que envolva a transferência de tecnologia para dinamizar as relações bilaterais em diversos setores”.

Prestes a assumir o comando da Embaixada na capital iraniana, Rodrigo Azeredo ressalta que nos últimos anos esteve cinco vezes no Irã e em cada uma dessas viagens teve a oportunidade de ver importantes transformações ocorridas naquele país: “O Irã tem um mercado importante, com mais de 80 milhões de habitantes, uma classe média sólida, um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) superior ao do Brasil e um Produto Interno Bruto (PIB) que segundo estimativa do FMI deverá crescer 4,0% em 2016 e 3,7% em 2017. O país possui importante parque industrial com destaque nas áreas petroquímica, têxtil, metalmecânica e automobilística e apesar de possuir a quarta maior reserva mundial de petróleo e a segunda de gás natural, não tem uma dependência tão forte do petróleo como os países árabes. O petróleo responde por somente 30% das receitas do país”.

Na visão do ministro Rodrigo de Azeredo, “o Brasil acumulou um importante capital político junto ao Irã durante o processo de negociações do acordo envolvendo o programa nuclear iraniano. Naquela oportunidade, o Brasil era um dos poucos interlocutores confiáveis para Teerã e é importante utilizar esse capital em prol do reforço das relações bilaterais”.

Em julho de 2015, os chefes da diplomacia do Irã e do grupo 5+1 (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Rússia, China e Alemanha) concluíram um acordo histórico, em Viena, para limitar o programa nuclear iraniano e impedir que o país viesse a desenvolver artefatos nucleares. Após a assinatura do acordo, o grupo 5+1 e as Nações Unidas deram início à revogação das sanções econômicas contra o Irã.

Mas o fato é que embora o embargo tenha sido revogado, os bancos brasileiros continuam relutantes em lidar com o Irã pelo receio de serem alvo de sanções dos Estados Unidos, mesmo depois que Washington levantou as restrições sobre os bancos não-americanos.

Segundo o chefe do DPR do Itamaraty, “os Estados Unidos levantaram as sanções secundárias, que incidiam sobre as empresas estrangeiras, mas mantiveram as sanções primárias, que atingem apenas as empresas americanas”. Com isso, isso os bancos brasileiros, que têm uma grande exposição aos bancos americanos, temem ser alvo de sanções e multas caso façam negócios com os iranianos.

O embaixador Rodrigo Azeredo lembra que “temos estado em contato com vários bancos para explicar que é possível encontrar soluções que beneficiem não só as empresas brasileiras, mas os próprios bancos. Os bancos brasileiros têm se comunicado com as autoridades do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e estão explorando maneiras de configurar as operações triangulares através dos bancos europeus de menor porte. O Irã quer normalizar as suas relações bancárias e está fazendo o dever de casa. Nós temos que ser mais proativos e fazer o mesmo. Mas é importante destacar que tem havido evoluções importantes e esse é um dos temas que serão tratados durante a reunião em Brasília”.

Coincidência ou não, a realização da Comissão Econômica e Comercial Brasil-Irã foi programada para os dias 17 e 18 de novembro, as mesmas datas em que as autoridades do Banco Central receberão em Brasília uma missão dos Departamentos do Tesouro e do Comércio dos Estados Unidos para tratar de questões bilaterais brasileiro-amercanas. Os temas ligados ao financiamento bancário das operações do comércio exterior com o Irã certamente farão parte da agenda de trabalho.

Na opinião do ministro Rodrigo Azeredo, apesar desses problemas no tocante às operações bancárias ligadas ao comércio exterior, são grandes as perspectivas de crescimento do fluxo de comércio brasileiro-iraniano: “a meta de se elevar as trocas bilaterais ao patamar de US$ 5 bilhões e perfeitamente factível, ainda que não seja possível fazer um prognóstico sobre quando ela será alcançada”.

Segundo ele, “o Brasil pode aumentar as exportações não apenas de produtos básicos, como vem acontecendo este ano, mas também de aviões, ônibus, tratores, geradores elétricos, máquinas, equipamentos médico-hospitalares. Para que essa expansão ocorra, o Irã considera fundamental que não se trate apenas de aumentar as exportações, mas que elas aconteçam num contexto que contemple uma maior parceria, a transferência de tecnologia e o aumento da cooperação em diversos setores, como a agricultura. Por outro lado, o Irã pretende aumentar as exportações para o Brasil de petróleo em bruto e derivados, ureia, petroquímicos entre outros bens”.

Para o diplomata, o Irã não é um mercado atraente para o Brasil apenas por si só: “o país é uma porta de entrada para os mercados da Ásia Central. Exportar para o Irã abre possibilidades de novos negócios em países como o Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão, mercados em que existem grandes perspectivas de negócios para empresas brasileiras dos mais diversos setores”.



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