Mudança nos EUA afeta ‘commodities’ e exportações brasileiras

A eleição do magnata Donald Trump à presidência dos Estados Unidos levou mais incerteza a uma área estratégica para a retomada do crescimento da economia brasileira: as exportações. O discurso protecionista do republicano durante a campanha, se implementado, poderá afetar segmentos estratégicos para a balança comercial brasileira, como os de commodities agrícolas e metálicas.

Ao mesmo tempo, Trump defendeu medidas que poderiam acabar beneficiando o Brasil: os investimentos em infraestrutura, que puxariam a demanda global por minério de ferro, e o estímulo à indústria petrolífera, em detrimento das fontes renováveis de energia. Uma possível alta na cotação do petróleo daria novo fôlego à Petrobras, um dos motores de investimento no Brasil.

Eugene McGillian, analista da Tradition Energy, lembra que, durante a campanha, Trump fez propostas genéricas, portanto, será preciso esperar um pouco mais para saber que mudanças ocorrerão, principalmente no mercado de energia. A seu ver, embora seja provável um aumento do consumo de petróleo, decorrente do estímulo à economia e da retirada de subsídios à produção e ao uso de energia renovável (fontes limpas), ainda é cedo para falar em um impacto no preço do óleo.

"São esperadas mudanças na regulação, e o novo governo pode cortar os subsídios para energia renovável. Isso pode estimular a oferta do óleo cru, com uma maior demanda, mas é preciso esperar para ver o que o presidente vai fazer", disse.

De fato, apesar de uma leve alta nos preços no dia da confirmação da vitória de Donald Trump, o impulso do petróleo não se manteve. Naquele dia, o barril do tipo Brent fechou cotado a US$ 46,36, em alta de 0,70%. Ontem, fechou a US$ 46,42.

Além do estímulo ao uso de fontes não renováveis, como petróleo e carvão, há uma expectativa sobre como Trump agirá em relação ao acordo climático assinado em Paris, no ano passado, pelo qual os EUA se comprometeram a usar menos combustíveis fósseis.

Em relatório, Artur Manoel Passos e Tomas Davidowicz, economistas do Itaú, advertem ainda para o fato de que as incertezas quanto à política externa americana sob Trump tornam o cenário mais complicado para a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) fechar um acordo que limite a produção de óleo no mundo. Eles apontam isso como uma das razões para o preço da commodity ter perdido força nas últimas semanas.

Com relação ao aço, se Trump realmente adotar as medidas protecionistas alardeadas durante sua campanha, poderá haver um excesso de oferta do produto no mundo — isso porque a China, atualmente o maior produtor mundial de aço, teria de buscar novos mercados. No entanto, se o republicano cumprir a promessa de investir, durante seu governo, US$ 500 bilhões em obras de infraestrutura, o preço do minério de ferro ganhará impulso.

Isso já vem se refletindo no mercado, ainda que de forma especulativa. Na semana passada, a cotação do minério de ferro atingiu seu maior valor no ano, a US$ 79,81 a tonelada — patamar que não atingia desde 2014. Os preços da matéria-prima variam em função do consumo global, puxado por Estados Unidos e China.

"Ainda é muito cedo para dizer se o novo governo dos EUA vai incentivar o crescimento da economia, como Trump prometeu na campanha, investindo em grande projetos de infraestrutura. Mas o mercado já reagiu de forma especulativa, e o preço do minério de ferro, que já vinha subindo nas últimas semanas com os estímulos do governo chinês, ganhou novo impulso", diz Felipe Beraldi, economista dos setores de mineração e siderurgia da consultoria Tendências, lembrando que, este ano, a commodity acumula alta de 68,8%.

Esse movimento beneficia as mineradoras, como a brasileira Vale, que viu o valor de suas ações mais que dobrar de valor desde janeiro, saindo de R$ 10,25 no fim de 2015 para R$ 22,52 ontem. Uma alta adicional, contudo, pode ser limitada, uma vez que analistas não acreditam que os Estados Unidos possam substituir a China como maior comprador global do produto.

Mas se Trump colocar em prática suas promessas de protecionismo comercial, o mercado global pode ser inundado pelo aço chinês, ressalta Beraldi. Nesse cenário, o Brasil também seria prejudicado, já que os EUA são grandes compradores das siderúrgicas brasileiras.

"Esse é um grande risco para o aço brasileiro, que já vinha sofrendo restrições no mercado americano, como aumento de tarifas antidumping. E seria pior num momento em que as siderúrgicas brasileiras buscam o mercado exterior para fugir da desaceleração aqui", afirmou Beraldi.

As siderúrgicas americanas perderam bilhões de dólares com uma superoferta de aço barato no mundo em 2015. Com isso, o governo elevou as tarifas de importação, o que puxou os preços do produto no mercado americano, dando fôlego extra às combalidas siderúrgicas locais. Um cenário que, se mantido por Trump, beneficiaria apenas a Gerdau, cuja fábrica nos Estados Unidos representa quase 40% de suas receitas.

Com relação ao comércio exterior, Anderson Galvão, presidente da consultoria agrícola Céleres, considera o governo Trump uma incógnita. Galvão estima que o mercado de grãos, no qual o Brasil é forte, deve ser pouco afetado, uma vez que os Estados Unidos também são grandes exportadores de soja e outras commodities agrícolas, e não faria sentido o governo americano tomar ações protecionistas no setor.

A maior preocupação, diz o especialista, é com a carne in natura, que o Brasil recentemente voltou a vender aos Estados Unidos e que, em tese, poderia sofrer um novo bloqueio. O Brasil também é forte na venda de aves, mas os EUA não estão entre seus principais mercados. No caso específico da soja, contudo, um efeito indireto da eleição de Trump tem beneficiado os produtores: com a valorização do dólar, o preço da soja melhorou para os exportadores brasileiros, que já estão vendendo a safra de 2017.

"A soja está sendo vendida a um preço melhor, e isso foi algo inusitado. E o agricultor do Centro-Oeste tira proveito. Mas, de qualquer forma, a eleição do Trump ainda é uma incógnita. A maior preocupação é com o setor de carne, já que em grãos não deve ter mudança significativa", avaliou Galvão.



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