'A era da meia-entrada no Brasil acabou', diz secretário da Fazenda

NOVA YORK - Após o secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Marcello de Moura Estevão Filho, prever na manhã desta segunda-feira um cenário para a economia brasileira “bem mais claro” em 2017, o secretário de Política Econômica, Fábio Kanczuk, defendeu o fim do que qualificou de "meia-entrada" no Brasil. As declarações foram feitas em Manhattan, durante um evento organizado pela Câmara de Comércio Brasil-EUA.

— A era da meia-entrada no Brasil acabou. Somos generosos ao extremo com nossa Previdência Social e a sociedade como um todo é quem paga a conta. Muita gente paga meia-entrada e a conta acaba ficando muito cara para o conjunto da população. Isso precisa mudar — defendeu Kanczuk, após citar as reformas na legislação trabalhista feitas pela administração Angela Merkel na Alemanha, como a redução de benefícios aos desempregados.

O secretário também afirmou que acredita em um potencial de crescimento do PIB brasileiro, com a aprovação das reformas estruturais propostas pelo governo Michel Temer (PMDB) e a "redução do peso do Estado na economia" de até 3,7% ao ano.

— Sem as reformas, podemos chegar a um crescimento máximo de 2,3%. Com as mudanças estruturais e o retorno, depois de vinte e cinco anos, do setor privado em peso na economia, podemos alcançar os 3,7%. Este é um momento de grande otimismo para se investir no Brasil, defendeu Kanczuk.

Estevão, por sua vez, anunciou previsão de crescimento de 3,2% no quarto trimestre deste ano em relação ao terceiro, e de 2,7% em relação ao quarto trimestre do ano passado.

— Há um aumento de confiança do setor privado e a recuperação da economia é fato. Não se assustem com o barulho feito durante o processo de aprovação das reformas estruturais, como a da Previdência Social, fundamentais para a recuperação do país — afirmou, para uma plateia formada majoritariamente por investidores brasileiros e americanos.

— Os ruídos são apenas sinais de uma democracia vibrante como a nossa. As dúvidas em relação ao tamanho real das reformas será resolvida assim que elas forem aprovadas, disse Estevão Filho.

O secretário afirmou ainda que o Ministério da Fazenda está trabalhando com o Itamaraty para a proposta de uma revisão das taxas comerciais aplicadas pelo Mercosul, uma aproximação com os países do Pacífico em busca de maior integração da América Latina, além de finalizar o acordo comercial com a Comunidade Europeia, “nossa prioridade”.

Antes de Estevão, falou o ex-ministro da Fazenda e atual diretor financeiro do Banco Mundial, Joaquim Levy, em tom otimista com a previsão de maior crescimento global e do aumento do fluxo de financiamento público e privado para as economias emergentes. Estevão defendeu que a reforma da Previdência Social é fundamental para as previsões tanto de crescimento na economia quanto do otimismo dos investidores.

— Não tenho a menor dúvida de que a reforma da Previdência será aprovada ainda este ano. De que tipo, dependerá das negociações que hoje acontecem. Mas será aprovada e irá garantir poupança para o governo, algo importante para a sociedade como um todo. Pela proposta original, a ideia era estabilizar em dez anos a relação entre os benefícios da Previdência Social e o PIB, afirmou Estevão.

LEVY TRAÇA CENÁRIO OTIMISTA PARA INVESTIMENTOS

O ex-ministro da Fazenda e atual diretor financeiro do Banco Mundial, Joaquim Levy, no discurso de abertura do Brazil Summit, evento anual promovido pela Câmara de Comércio Brasil-EUA, traçou um quadro otimista para investimentos no mercado emergente. De acordo com dados do Banco Mundial, há possibilidade de US$ 1,5 trilhão de dólares em projetos "abertos e em estruturação no momento mundo afora", sendo US$ 250 bilhões na América Latina.

— Isso não significa que o Banco Mundial irá participar em todos estes projetos, mas dinheiro e a necessidade de incremento da infra-estrutura existem, o que precisamos encontrar é a forma ideal de financiamento no caso do Brasil, por exemplo — disse o ex-ministro, que seguiu: — Não podemos olhar a curto prazo, temos de pensar em novas políticas fiscais, e em uma menor dependência do financiamento público, em um ambiente de maior competição para se atrair o financiamento privado. Temos conversado com o BNDES para elaborar novas parcerias e um sistema de garantias para os investimentos e nosso foco deve ser a busca de taxas de juros mais baixas, afirmou.

O ex-ministro do governo Dilma Roussef, que elogiou as "boas cabeças que o atual governo brasileiro colocou para administrar as finanças do país", não quis tratar da importância da aprovação da reforma da Previdência para a saúde da economia brasileira:

— Ainda preciso consultar nossos representantes no Banco Mundial para ver a avaliação deles.

KANCZUK: REFORMAS MICROECONÔMICAS NA BUROCRACIA

O secretário também afirmou que reformas microeconômicas na burocracia serão importantes nos próximos meses, incluindo a diminuição do tempo de espera para se abrir uma empresa em São Paulo de 101 para três dias e a reducão de cinco pra três dias na espera para trâmites de exportação e importação no Brasil.

— Podem nos cobrar isso em dez meses. Não há motivos para estarmos tão atrás de México, Peru e Colômbia em ambiente para se fazer negócio no país, precisamos alcançá-los nos próximos anos — afirmou Kanczuk, que também apontou a reforma da Previdência Social como fundamental para o país.



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